Sexta-feira, Dezembro 11, 2009

Linhas

Eu até gosto de te ver pela janela. De te sorrir enquanto me esperas. Dizer adeus em tom de provocação porque sei que não vais estar no "até já". Todos queremos o impossível. Mas às vezes, estamos tão perto, tão perto. Que irrita não poder chegar lá.

Mesmo quando temos aqueles momentos. Que sim, que são do outro mundo.
É quase impossível. E, por isso, às vezes amarga.

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Pela janela

Passa os dias à janela. Gosta de observar os detalhes, os pequenos pormenores. Desculpa, os pormenores. Repara no relógio falso da senhora rica que passa sem lhe dizer bom dia. E vê-a todos os dias. Sorri-lhe todos os dias. Mas não recebe um olhar de volta. A senhora rica do relógio falso. É assim que ela a cataloga. O relógio imita a luz do ouro. Falso.

São nove da manhã. Os óculos grossos obrigam-na a franzir as sobrancelhas. Há algum tempo que não tem dinheiro para comprar lentes novas. Já para não falar da armação antiga, acastanhada, fora de moda. Uma armação que a distingue. Mas ela não se importa. Ali, perdida numa pequena rua lisboeta, sim, à janela, percorre olhares e gestos. Gritos e lágrimas. E vê as luzes.

A vida fê-la toda ali. E quem ali mora gosta de lhe sorrir. É como um polícia que lhes dá segurança.Observa. Não deixa escapar nada. Mas não, não partilha as histórias. Fica com elas. Guarda-as. No bairro, diz-se que escreve um livro onde deixa palavras a pintar as folhas de papel. Sabe que o homem trai a mulher. Sabe que a mulher não sabe de nada. Mas que faz o mesmo. E não conta. Sabe que o filho salta pela janela, que fuma, que tem amigos impróprios. Sabe que os pais não sabem. Sabe que o presidente da junta aceita uns trocos para fazer favores. Mas não diz. Sabe que um dos funcionários é informador da polícia. Mas não conta. Sabe que o polícia que investiga o presidente da junta até gosta de ir dar uma voltas aos bares das meninas. Sabe que tudo. Observa. Descobre em si os pormenores da intriga. Faz a história. Mas não conta. Podia ser uma estátua. Mas os olhos, meigos, escondidos atrás dos óculos antiquados, não deixam que assim seja.

Tem as pernas presas. Um acidente de automóvel. Para a vida. Por isso não percebe a senhora rica do relógio falso. Por isso continua a sorrir-lhe à espera que um dia compreenda através dos óculos escuros o que lhe vai na alma. Esta senhora, que ela não conhece, mas que acha ser falsa, é a única que não lhe sorri. Não sabe nada dela. Ela sabe tudo de toda a gente. E queria saber a história desta senhora. Da senhora que passa todos os dias, há dias, há meses, há anos, há duas décadas. Que passa sempre de óculos escuros e cabeça baixa. E tem um relógio falso. Ninguém pergunta. Ela também não. Todos os pormenores menos este.

Quer acabar o livro. Dizem no bairro. Um dia estendo-lhe a mão, pensa. Ela não sabe nada da senhora rica. O relógio falso é a pista que lhe alimenta a descoberta. Ela não vai sair dali. Um dia abro-lhe a porta. E alimenta a descoberta. Um dia, abrigo-a em mim. E descansamos.

Domingo, Novembro 01, 2009

Recados

Tenho de te escrever, essa é a verdade. Mas não o fiz durante algum tempo, não te quis deixar recados, dar-te um pouco de mim. Não o fiz porque achei que não merecias. Foi isto que aconteceu, já to disse, sem reservas, portanto se o ouvires novamente não será uma surpresa.

E, apesar de ter vontade, apesar de já estar a deixar aqui um pouco de mim, continuo à espera. Porque tu estás em dívida. Sabes disso. E eu não me quero voltar a contentar com os espaços. Ou melhor, estou a escrever porque preciso das tuas palavras. Mas não estou a pedir. Porque fizémos esse acordo. E eu detesto pedir. Detesto pedir o que é suposto ter sem ter de relembrar.

No essencial, este é o problema. Ter de agir de forma oposta àquilo que sempre defendi.
Porque o facto de te amar, de te odiar, ou de te esquecer, não justifica nada disso.

Porque tu me habituaste assim.
Porque nós somos isso. Sem isso.
Desaparecemos.

Terça-feira, Outubro 06, 2009

Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas coisas do mar. Contar-te o amor ardente e as ilhas que só há no verbo amar. Contar-te longamente longamente.  Amor ardente. Amor ardente. E mar. Contar-te longamente as misteriosas maravilhas do verbo navegar. E mar. Amar: as coisas perigosas.  Contar-te longamente que já foi num tempo doce coisa amar. E mar. Contar-te longamente como doi  desembarcar nas ilhas misteriosas. Contar-te o mar ardente e o verbo amar. E longamente as coisas perigosas.                           Manuel Alegre
P.S. Contar-te, mais longamente. O sabor do verbo amar.

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

"O que há em mim é sobretudo cansaço"

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

(Obrigada.)

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

Sabes uma coisa?

Hoje não me chega.
Não me chega.
E bastava um simples gesto.


Terça-feira, Setembro 15, 2009

Enquanto

Quando me disseste "um dia", fiquei à espera, abraçada a um conforto que não conhecia, que queria conhecer, mas sim, sabendo, tendo consciência, a saber, que nada pode deixar de ser enquanto é. Agarrei-me a esses pedaços de pequenas coisas que poderiam vir a ser mundo, que ela gostava que fossem, mesmo sem ter a certeza, a saber, nada pode deixar de ser enquanto é. E não foi mais do que isso, que quis ser entre precalços, pedaços, fantasias, as palpitações constantes que acalmas com suavidade, pode deixar de ser enquanto o é. Por isso, o querer, perto bem perto, ser conquistada, acho que sim, que já tinha falado nisso, ela tinha até insistido, com medo, deixar de ser enquanto o é. "Um dia" podem ser instantes, achou ela que seria isso que ele queria dizer, por entre palavras de conforto, suavidade sentida, de ser enquanto o é. Ela dormia entre aspas, sim entre aspas, o resto pairava, suavemente, com delicadeza, ser enquanto o é. Ele fica à espera da definição, do momento em que ela se decida, espera, era ele. As palavras sairam trocadas, enquanto o é. Hoje, ela, ele os dois, ficam a pairar. É. E ponto.