terça-feira, janeiro 27, 2009

Palavras

Hoje, voltei a ler-te. As tuas palavras. Aquelas que escrevias quando ainda não éramos nós.
E tive saudades. Saudades do tempo em que ainda não éramos nós. E daí, talvez fossemos. Saudades de uma protecção sem segundas intenções. Um acreditar. Era isso. É isso. Faz-me falta essa vontade de sonhar, como tu sonhavas. Como ainda sonhas. Sempre no nível oito. É o teu muro. Eu sei.
Hoje, quando te li, tive saudades. Outra vez. Do teu escrever. Hoje, quando te li, tentei procurar-me nas tuas frases. Mas ainda não éramos nós. Éramos outra coisa.
Pedaços de frases, de palavras, de pensamentos. (Mas o que mais quis foi encontrar-me ali). Mas era cedo. Era outro tempo. Aquele foi o tempo reservado para os olhares, para a leve cumplicidade, era o tempo dos momentos. Das fracções de segundo em que ainda não éramos nós.
Hoje, somos. Já somos nós. E continuo com saudades das tuas palavras.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

(É este barulho de que falas, com que sabes se chove ou não de manhã?É. E tu sabes. Pois sei. Mas lembrei-me agora disso. Senti o mesmo que sentes de manhã. E não há frio. Um sorriso. Um mimo.)

Porque há coisas assim tão simples. E assim tão boas.

terça-feira, janeiro 13, 2009

O rio

"Não falaram enquanto caminhavam; iam ver o rio, isso ambos sabiam. Era o sítio deles. O local sagrado do primeiro beijo, das mãos que se tocavam mais longe, com o tempo, com o frio, que permite relativizar o desejo. Desceram sem cuidados, a terra batida, a serra ao fundo com a moldura de neve, o som do rio."
em No Silêncio de Deus, Patrícia Reis


domingo, janeiro 11, 2009

Assim

"Beijinhos na boca, arrepios no peito."

domingo, janeiro 04, 2009

O som

Sem planos. Sem tempo contado. Ou mesmo que existisse, não se dava por ele. Percorreram a cidade. Conversaram. Sorriram. Um copo. E dançaram. Devagar. Os corpos balançavam de forma simples. Sorriram. A cumplicidade era evidente. Era mais do que isso. O toque da mão no joelho. A música. Os olhos fechados e o sorriso. Genuíno. Verdadeiro. Tão absolutamente feliz. Ficaram assim. Até irem dormir. Em silêncio. Mas uma ausência de som simples. Tão simples. Ternurenta. Que lhe fez bem. Que a deixou bem. 

(He'll look to me and smile
I'll understand
And in a little while 
He'll take my hand
And though it seems absurd
I know we both wont' say a word.)

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Sim

Quero. Muito. E isso deixa-me perdida.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Fuga

Vinha de carro. A sentir o vento nos cabelos, de cigarro de fora. Estava a chegar perto daquele momento em que poderia eventualmente cair qualquer coisa parecida com uma lágrima. Não devia demorar muito. Mudou de sentido. Fez um telefonema. A resposta foi "sim, quero!". Não pensou duas vezes. Pôs a música alta, alta mesmo. Naquela intensidade em que se ouve apenas o que se quer ouvir. A batida alegre. Foi a cantar. Deu boleia. E seguiu para o lugar combinado. O tempo passou a voar. Conversas. Sonhos partilhados. Desejos. Frustrações. Vontade de voar. Desabafar. Deitar cá para fora. Não a lágrima. Mas a saudade. O ritmo da conversa, sempre alucinante. Porque às vezes o melhor é esquecer, não pensar. Tinha saudades disso. De fugir. Tu estavas lá. E sabes o que isso significou para mim.

Beijo.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Pensamentos

"É preciso coragem para mudar, começando por nós mesmos. E isso, às vezes, é o mais difícil".

"O pensamento é livre como o vento."

Manuel Alegre

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Na rua

Já pensei várias vezes nisto. No homem que, de vez em quando, dorme num abrigo de uma garagem ao pé de minha casa. Um pequeno buraco onde, há cerca de três meses, este senhor  fecha os olhos, tapado por uma manta, sem deixar que se veja a cabeça. Um dia, vinha a chegar a casa, por volta das sete da manhã e estava este homem - não deve ter mais de 40 anos - a colocar um barrete na cabeça, a ajeitar a roupa suja e velha que tinha no corpo e a juntar os pedaços de cartão que o separaram do frio gélido, passo a redundância, do mármore onde se deitou. Pensei qual será o limite para que alguém tenha de dormir na rua. Sim, há o álcool, há a droga, há isso tudo. Mas as vezes não há nada disso. É o que me parece aqui.

Há o estar sozinho. Uma coisa que me assusta verdadeiramente. Não ter nem se quer alguém que nos abrace e diga - ainda que seja mentira - "vai ficar tudo bem". Hoje, senti medo.  As notícias só falam de crise. Fala-se de apoios, de investimentos, de milhões. Mil milhões de euros. Despedimentos. "O próximo ano vai ser muito complicado". Não vai haver crescimento económico. Salvam-se os bancos. Não se sabe quando terão de se salvar mais. Medo. Acredito que nunca terei de dormir na rua. Mas assusta-me a ideia de o país estar à beira do abismo. Sim, sempre vivemos em crise, é verdade. Mas agora, parece muito mais do que isso.

Tenho medo. E gostava de ter coragem para descer as escadas, dizer àquele homem para subir, tomar um banho e oferecer-lhe uma chávena de chá bem quente, com torradas. Coragem para falar com ele. Provavelmente, continuaria a dormir na rua. Mas talvez o gesto o aquecesse e não precisasse daqueles pedaços de cartão velho.

(É por isto que sou de esquerda. Diz o Pedro Lomba no DN que é porque recebo mal. Não, não é por isso. O que não quer dizer que receba bem, recebo até miseravelmente.)

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Simples

Sentada num café, a fumar um cigarro. A ler os jornais. Bloco de notas, caneta na mão. Rascunhos. Ideias. Pensamentos. Frases soltas, palavras baralhadas. 

Olhar em redor. Famílias a tomar o pequeno almoço. Velhos a fazer palavras cruzadas. Crianças a brincar perto da água. O tempo está cinzento. À maneira dela, preenche os minutos e as horas. 

O cheiro a castanhas assadas. Não está lá o senhor do costume. Senta-se no muro e olha para cima. Como num filme. "Já te disseram que és linda?"


quarta-feira, dezembro 03, 2008

Gelo

Sinto falta do sol de Julho. Dos passeios na Baixa com a brisa morna. Das cervejas geladas em tom de brinde ao pôr-do-sol, com o Tejo a sussurrar segredos lá em baixo. Do calor do Verão. Da praia. Da areia a queimar os pés. De sentar-me à beira-mar a ver o pôr-do-sol. De ter calor. de não precisar de casacos. Do corpo fresco. Dos finais de tarde. Do rio. Dos jantares com vinho tinto. Das manhãs longas. Dos dias intermináveis. 

É irreversível este meu ódio pelo frio.

E mesmo em casa, à lareira, enrolada na manta. Faz frio.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Desabafo

(Por que é que queremos sempre mais do que aquilo que realmente podemos ter?

Ou melhor, por que razão estúpida não contentamos com as coisas simples e boas?)

:)




segunda-feira, dezembro 01, 2008

Quando eu era pequenina...

(Relato de mãe)

Três anos de idade. Estava muito concentrada em qualquer actividade de uma pequena criança. Irritada, sai-me com clareza "Porra!". A minha mãe, muito preocupada com a minha linguagem diz com carinho: "Oh filha, não digas porra que é uma palavra feia. Quando estiveres mesmo chateada diz "bolas!".

Abanei com a cabeça. Mas o que ouvi deve-me ter saído a 200 à hora.

Continuei concentrada. E irritei-me novamente.

Como criança cautelosa, tirei as dúvidas com a figura materna: "Mãe, era méda ou porra?"

Sempre perspicaz :)

quarta-feira, novembro 26, 2008

Na bancada

"Senhor guarda, sou da comunicação social...posso entrar na zona de residentes. Tenho aqui o cartão." Com ar de quem já ouviu aquela treta mil vezes, encolhe os ombros e diz: "Vá, siga lá". (Uffaa..às vezes isto de ser jornalista até resulta bem..). Correria de entrada. Espero na fila. Entro. A segurança fica espantada com a quantidade de coisas que levo na mala. Desiste de a revistar. Subo as escadas. Sento-me na cadeira. Não sei qual era a cor. Pormenores. Apito. Silêncio. As vozes ecoam no estádio. Expectativa. Um golo. Muitos nomes feios. "Pilinhas me penetrem", como diria o outro. Outro golo. A intensidade dos apupos aumenta a olhos visto. Mais outro. (Fdx, não é hoje que estes caralhos começam a jogar bem!). Peço desculpa pela rudez.

"Parecem uns matraquilhos, não descolam do ferro."

"Ó Veloso, aconchega a bola no pipo." 
"Tu queres é a passerelle!"
"Só querem é aparecer nas revistas." (Malditas revistas, esses sacanas, malandros!)
"METE O BARBOSA!!" :)

Golooooo!! Há esperança. Outro golo. Ainda mais motivação. E pronto, eis que o jogador da equipa marca golo...NA PUTA DA PRÓPRIA BALIZA, caralho!! Peço desculpa mais uma vez. Exaltei-me.

É que há com cada coisa...Ouvem-se "olés". Sim, perde-se 5-2. Mas quem perde sorri. "Haja alegria, isso é que não se pode perder!" (Não fosse um sportinguista a dizer isto...)

Nuestros hermanos fazem-se sentir nas bancadas. Os sportinguistas não gostam. E eis que surge o D. Sebastião. O público vibra e ouve-se: "FIGO! FIGO! FIGO!"

(Silêncio do lado espanhol)

E diria eu: CHUPA CABRÃO!

:)

Tendências

Uma pessoa perde meses a ensinar os homens que castanho e preto é uma combinação proibida no que diz respeito a vestuário...

Depois, vem o Inverno e a nova moda: Camel e preto.

E eles dizem: vês, vês?

E são mais uns quantos meses para explicar a diferença entre castanho escuro e Camel...

Vida de gaja não é fácil :)

terça-feira, novembro 25, 2008

Os outros

Dizem os entendidos que os inteligentes não se gabam, que os vulgares podem ser melhores e que os medíocres gostam de pairar. De minar. De chegar às conclusões correctas, as deles, claro. De sorrir enquanto acham estar a gozar o prato. Quando, com medo, atacam. Mas não o sabem fazer. Fazem-no mal. Com tiques de fraqueza. Os entendidos devem saber do que falam. Eu não sei. Muito, pelo menos. 

Sei antes para onde vou. Onde quero chegar. Não vivo mal com isso. Aliás, vivo até bastante bem. 

E tu? 


A frase

"Eu nem sequer consigo enfiá-las, quanto mais metê-las à porta!"

Muito bom :)

Há coisas tão simples

"Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer. 
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte 
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer."
José Luís Peixoto, em A Criança em Ruínas

domingo, novembro 02, 2008

Estás a pensar em quê?

No carro. Curvas. Contra-curvas. Silêncio. Música de fundo.

- Estás a pensar em quê?, pergunta ele.

- Em nada, diz ela.

(A resposta é típica. E naquele "nada" correm um turbilhão de ideias desconexas, desejos, vontades, sentimentos diversos. Naquele "nada" estão milhares de palavras que quer dizer. Está um futuro que desconhece, um imaginário que não passa disso mesmo. Pela janela, vê as folhas a cair. Sinal do Outono que chega e do frio que se vem anunciando.)

Silêncio. Prolongado. Em jeito de hesitação.

- Sei exactamente o que estás a pensar... é assim para os dois, confessa ele.

Um beijo na testa e um festa no rosto.




segunda-feira, setembro 29, 2008

Borboletas


Estamos à janela, a ver o pôr-do-sol e somos surpreendidos por um toque no ombro. Uma leve brisa que ali passa. Trememos. Assustamo-nos. Não quer dizer nada, mas subtilmente acaba por dizer quase tudo.  Nos últimos meses tem sido assim. 

Borboletas. Duas. Ocupam o espaço sem qualquer tipo de preocupação. Procuram o lugar mais indicado para acasalar. Fico ali a vê-las, a brincar uma com a outra. A provocarem-se, num persistente toque de asas. Dançam e baloiçam naquele jogo natural de sedução. Páram. Perto de um velho castanheiro. À beira-rio. As asas ficam suspensas. Presas uma na outra. Cumplicidade. Trocam olhares, quem sabe. Sorriem. E dizem, sussurrando, palavras de amor.

São borboletas. Não sabem o que fazem. Brincam aos namorados. Voam. Mergulham na brisa. Atiram-se de cabeça. Porque um dia, um dia, vão procurar um cantinho perto daquela lua. Aquela que agora, depois de anoitecer, ilumina a dança de acasalamento. E elas vão. Sem destino. O essencial: amor ao luar.