quarta-feira, setembro 22, 2010

Sem noção - Deolinda

"Quantas vezes julgas alguém
por julgar ter mais do que tem e não ter
a noção de si,
tu não tens a noção de ti.
Quantas vezes queres e não tens,
tantas vezes tens e nem tens a noção do que tens aí.

Tu não tens a noção de ti e perdeste a noção de mim.
Tu não tens noção do que tens, de quem és, de quem sou para ti,
tu perdeste a noção de quem gosta de ti.
Gosta de ti sem noção de que o amor tem...

Tantas vezes penso que tens a noção e a fé
nesses bens que deténs só porque enfim,
tu não tens a noção de mim.
Tantas vezes quis ter também e aprendi não
dando ninguém, só meu que devolvi,
tu não tens a noção de mim e perdeste a noção de ti.
Tu não tens noção do que tens, de quem és, de quem sou para ti,
tu perdeste a noção de quem gosta de ti.

Gosta de ti sem a noção de que o amor tem fim."

quarta-feira, setembro 01, 2010

Quero ir.

Sair, partir, voar, descobrir.
Quero ir.
Com a certeza de que se precisar de voltar.
Se precisar.
Que não vamos fugir.

segunda-feira, agosto 02, 2010

Na linha do mar


Começámos com poucas linhas traçadas. Sem espaço para mexer os pés e com um pequeno saco para o lixo. Fomos seguindo até ao mar. Esperámos pelo ferry. Com óculos à venda numa fila quase pequena para tantos vendedores que ali tentavam a sua sorte.

Medusas. Sem golfinhos. Visitámos com pouca vontade aquilo que alguns desejaram construir para ganhar dinheiro. Felizmente, está deserto. Como o deveriam ter deixado. E seguimos para um pequeno paraíso: água clara, banho refrescante, livros, petiscos. Descobertas de sentidos, diferenças, semelhanças. E a língua preguiçosa. A inglesa, entenda-se.

Praias desertas. Ou quase. Encontros que se julgam impossíveis. Milhares de pores-do-sol (se se pode escrever assim), pelo menos do que me foi deixado captar. Aquele em que a criança brincava com a mãe e tiravam fotografias. Ele só queria nadar. Aquele em que famílias regressavam. Aquele em que a prancha delineava o horizonte. Aquele em que gaivotas procuravam terra. Aquele em que do alto conseguia tocar o sol. Aquele em que, ao final do dia, assistia tranquilamente à chegada dos peixes. Depois de uma hora a puxar cordas. Sim, foram vários.

Partilha-se tudo. Até a impaciência matinal. Ou o mau humor. Atura-se tudo. Porque nada tem assim tanta importância. Importa absorver tudo. Guardar tudo em compartimentos que receamos não conseguir encontrar. E escrevemos.

Conversas à noite. Sobre tudo aquilo que nos ocupa diariamente. Não falo de trabalho, porque não tocámos nesse campo. Explorámos as diferenças, as expectativas. E tudo tem mesmo a ver com isto: expectativas. As que criamos. As que imaginamos como reais. As que sabemos que nunca terão lugar. Ou terão, mas faltará sempre o pormenor. As que, de repente, vemos que são partilhadas.

Pois é. O amor não é perfeito. As relações não são perfeitas. Sim, o cliché: "nada é perfeito, porque assim perderia a graça". Mas talvez não queira dizer perfeita. Sou um pouco mais de mim quando vejo as coisas de forma mais racional. Eu que nem sou assim. Mas dói menos. E gostei de vos ouvir assim. Sem complexos.

Gostei dos subsídios estatais. Das casas-de-banho gratuitas. Dos parques. Do calor. Daqueles pores-do-sol. Dos finais de tarde. Dos jantares tardios. Do cheiro a terra. Do rolo de papel higiénico. Do chão duro. Do cheiro a mar. Dos litros de água. Dos cremes. Das gargalhadas. Do senhor estranho que tentava adivinhar nacionalidades. Das sardinhas. Da sapateira. Do frio. Do mar. De nos perdermos. De nos encontrarmos. Até daquele nevoeiro estúpido de filme de terror.

Gostei.

sexta-feira, julho 16, 2010

Embrulho de Verão

Pediste-me em silêncio que escrevesse para ti. Sobre aquele fim-de-semana, como tu lhe chamas. Sobre aquele pequeno mundo que vivemos em momentos. Como aquele sol, e os mosquitos que me incomodam. Os insectos voadores, tu sabes. Quando te ris sempre que assobio a uma abelha. Não acreditas. Mas carregas nos botões dos peões nos semáforos. Porque acreditas que eles ficam verdes ao toque. Eu sei, queres que te fale daquele espaço.

Aqueles dias deixaram-me sôfrega. Sedenta de mais. De mais espaço. Ali no meio do sol, com o som dos grilos à noite. E as rãs que não encontrávamos. E o mergulho contido, depois do chuveiro antigo, com aquela manivela. Tinha um truque. Que guardaste para ti enquanto me olhavas a tentar, desesperadamente, encontrar água para tanto calor. Mas antes, muito tempo antes, tínhamos já refilado com a lentidão dos empregados no restaurante (sim, somos da cidade). Mas sabe bem um pouco de calma. Só tínhamos que nos habituar ao espaço.

O espaço de que queres que eu fale. Do corpo cheio de água, e calor. De um jantar em que alguém provocava um cão. Furioso. E nós ali, a dividir o peixe. Aliás, dividimos pouco. Comeste o melhor quase todo. Mas soube-te bem e não te quis tirar esse prazer. Podia só ficar ali a olhar para ti.

Sabemos os dois o que queremos. O que somos e o que podemos ser. Parados no tempo. Sinto-me assim contigo. Contei-te que no outro dia disse tranquilamente "eu que agora tenho 23 anos". Tinha sim. Mas não agora. Desculpa. Estou a falar de mim e não do espaço. Mas percebes que estamos nós aqui nestas palavras. Nas letras perdidas e baralhadas entre elas. Para que um dia as possa voltar a dar.

Quero-te falar do pequeno-almoço e do Cabo. Do farol. A tua paixão pelos faróis. Dizer-te devagarinho que adorei as geleias (sim, eu sei) e o sumo de laranja. E o sossego matinal. Que cheirei o fundo do mar naquela encosta, que me apeteceu agarrar-me às costas da cegonha e voar um pouco. Não estava frio. Nós não gostamos nada de frio. Digam o que disserem. E podia ter dormido ali abraçada. Encostada a ti, ao de leve. Porque sabes que preciso de me sentir um pouco protegida.

Gosto de nós assim. No calor. No refresco. No aconchego. Mas tive medo de escrever. Não queria que fosse qualquer coisa. Não me encontrava. Tu conheces bem essa sensação. Sempre que preciso dela, porque preciso às vezes de não me encontrar, acabo por me encolher.

Angustia-me a chegada. O caminho de regresso, mas também sabes isso. Estranho, porque normalmente até gosto do regresso. Só contigo é que não. Mas são horas. Depois passa. E tenho-te a ti. Entre letras perdidas e baralhadas entre elas.

Esqueci-me de te falar do jogo de cartas. Aquele que eu ganhei, lembraste? Se te disser que foi o meu momento, tu não acreditas. Não foi o jogo. Não foi a vitória. Foi só aquele momento, em que durante uma hora ficámos os dois. Falámos os dois. E estivémos em nós. A falar de banalidades que nos diziam respeito. No fim, demos um beijo.

No fim, tivémo-nos. Tal e qual como seríamos.

segunda-feira, maio 24, 2010

Ainda bem que apareceste.

Começámos por meros sinais. Não podia adivinhar. Conversas, hesitantes, sobre sentimentos confusos. Relações entrelinhas. Cabeça no ar. Responsável. Não me lembro de cor da primeira conversa. Não decoro todos os pormenores. Mas percebi rapidamente que serias uma pessoa para ficar. Não eras, não és, daqueles pessoas que apenas passam. Não és daquelas com quem consiga não estar. Entendes-me assim? Se te explicar não me vais entender melhor. Eu sei disso.

Percebi que tinhas medos. Inseguranças. Que gostas de falar. Que gostas de ouvir. Gosto disso em ti. Quando me ouves até mais não. Quando sabes perfeitamente aquilo que tenho de ouvir. Mesmo que saibas que não o posso fazer. Porque sabes. Acho que nunca te disse, assim, que gosto que me oiças. Que gosto de te ouvir.

E, sim, é verdade. Às vezes parece que corre tudo mal. Pior, corre mal nos momentos piores. Ironia. Mas fiquei genuinamente feliz quando te percebi feliz. E realizada. Como pessoa. Gosto de te ver feliz agora. Sei que percebes tudo em mim. Mesmo quando não falo. Que entendes o que quero dizer quando digo exactamente o contrário.

Estou para aqui a tentar dizer-te que ainda bem que apareceste. Que preciso de ti. Acho estúpido quando dizem que não é amor, mas amizade. Porque vale tantas vezes mais que o amor. Porque falha muitos menos vezes que o amor, que a paixão. Ainda bem que apareceste. E que me deixas estar no teu mundo. Porque fazes falta no meu.

E, apesar de já ter percebido isso há um tempo, só agora me deu o aperto no peito. Ainda bem que apareceste.

terça-feira, maio 11, 2010

Varredor de ruas

De manhã, enquanto tomo o pequeno almoço. Fazem barulho, destruindo pedaços de memória urbana. Apitam buzinas de condutores apressados. Mas podia quase desabar o mundo. Encontras no chão tudo o que outros não quiseram. Beatas, pacotes de leite, embalagens de sumo, folhas que caíram. Procuras a rectidão dos passeios e varres de forma linear. Passam por ti e agem como se não estivesses ali, como se fizesses parte da moldura. Imóvel. Mas continuas sem ligar a esses pormenores. Ela costuma dizer: "Eles deveriam receber milhões por terem este trabalho". Surpreende-me que suportes a rispidez do lixo urbano sem luvas para te proteger as mãos. Como se fosse parte de ti.
Sabes, o meu avô também tinha umas mãos assim. Negras do aço. Cheias de vida. De força. Há quem as considere sujas, nojentas. Falta de cuidado. Mas acredito que seja como destruíres um limiar do qual fazes já parte. Sim, é verdade. Tens um ar cansado logo de manhã, enquanto tomo o pequeno-almoço. De manhã, para mim. Para ti é já o fim do dia. Porque te levantaste ainda eu sonhava. Porque viste a cidade nascer e deitar fora tudo o que não queria. E varres. Com as mãos brutas a segurar o cabo da vassoura. Uma continuação de ti. Agarras no caixote verde escuro, tropa. E segues caminho. Para qualquer outra manhã te voltar a encontrar. Desculpa, ao fim do dia.

quarta-feira, abril 14, 2010

A frase

À conversa:

Eu: Se calhar devíamos apostar nisso...

Ela: Sim, à falta de melhor trabalho e de pirilau...

(Dito isto, está tudo dito).

Quero-te assim.

Subimos. Ficámos ali horas, deitados. Entre parêntesis. Parámos em relação ao mundo. Tocámos. Sentimos. Deixámos os medos de lado. Os melros, os pardais, as abelhas (fiquei calma, eu que nunca fico calma com insectos voadores), aqueles-que-não-sabíamos-dizer-o-nome. A serenidade entre buzinas distantes e carros apressados para o trabalho. Percorri-te o corpo. Ou melhor, partes de ti. Segredei-te ao ouvido (Desta vez sem palavras, às vezes fico cansada das palavras, do que repetimos sem ter noção. Cansada mesmo).

Ouviste bem o que te segredei? Guardaste em ti esse instante em que te quis dizer mais, mas que tive medo de te perder novamente? Guardaste em ti o momento em que hesitei dizer o quanto preciso de ti com medo de me dar mais uma vez? Percebeste quando te disse que "não me tinha lembrado de ti" com receio de te esquecer? Entende que tenho medo. De não podermos voltar.

Esse medo construiu um muro. Estou empenhada em fazê-lo cair.
Mas sou capaz de precisar de ajuda.


domingo, abril 04, 2010

Regresso

Chega e estranha sempre o mesmo: procura a língua materna, ouve russo, mas soa-lhe a português. Ouve italiano, mas pensa sempre primeiro na hipótese de ser um português a falar a língua romana. Depois, habitua-se. Uma criança corre ao sol, procura assustar os pombos. Ela percorre as ruas que um dia conheceu, procura o conforto. E encontra. O lugar onde já esteve, que conhece bem, onde se sente um pouco em casa. Ou pelo menos na casa daquele país que não é dela. Mas no cantinho de segurança. Não gosta de viajar sozinha. Detesta.

Isto porque para quem gosta de falar torna-se imensamente doloroso passar um dia inteiro sem trocar argumentos. Sim, ela não gosta de passear sozinha. Não tem nada de mal. Detesta a solidão. Mas isso também não será novidade. Procura então os lugares que percorreu antes. Procura pormenores, histórias. Os rapazes que chamaram isto, a conversa nas escadas na igreja. O lugar onde almoçaram juntas. Procura tudo isso. E fica a ouvir os sons da língua que não é a dela, mas que ela pensa sempre que pode ser.

Uma das coisas que mais estranha é o som. E, pode tudo ser magnífico, pode tudo ser esplendoroso, fora do vulgar. Mas não há nada como sentir o frio na barriga no avião de regresso a casa. As mãos suadas de nervos durante a aterragem. É sempre assim. E o suspiro quando o avião aterra. Ela adora viajar. Adora passear.

Mas o regresso a casa, ao porto de abrigo, é a melhor sensação de toda a viagem.
Tenho dito. Ou tem ela. Tanto faz para o caso.

sexta-feira, março 19, 2010

Conforto.

Por isso vem
Se cuidas de mim eu…
eu cuido de ti também
Dentro da minha mão
eu guardo-te bem
Se amarmos do principio
se perdermos tudo outra vez
vou marcar-te bem
como um sonho vão
dentro da minha mão

Se cuidas de mim
eu cuido de ti também
Se vens em paz
eu venho por bem
Se formos bebendo o chão deste caminho
vou guardar-te bem
agora que sei
que não vou sozinho.

por isso vem...
Há uma praia depois sombra
uma clareira para iluminar
Há um abrigo no meio das ondas
tudo é caminho para iluminar
Por isso vem.

Como um sonho vão. Os sonhos são isso mesmo, vãos.
E de mim, quem é que vem para cuidar?


Lyrics by Tiago Bettencourt

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

planos para o fim do dia

Dizem eles que são pequenos nadas. Que devo esperar. Para assentar. Mas eu não consigo esperar mais e receio deixar-me levar por partes que não quero. E que não anseio. Se estiveres aí, se ainda estiveres livre - como eras -, se achares que realmente não reconheces nada do que fomos em nós - o nós do presente, claro -, se achares isso, pára.

Porque é um sufoco assim. E isto não somos nós. Nem partes.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Criança

Estava um dia frio. Gelado mesmo. Pelo menos para quem está habituada ao clima latino. Mas a igreja, por norma também gelada, estava nessa tarde bem quente. As velas, as pessoas, o ambiente. Ouvia-se com atenção o entoar dos cânticos. E reparou numa rapariga morena, de olheiras profundas. Transmitia dor no olhar. Saudade. Tristeza.

Naquela igreja, quente, não conseguiu fixar o olhar em mais ninguém. Apenas naquele olhar, no qual as lágrimas começam agora a brilhar. Não está à vontade, o olhar perdido. Quer o abraço que já não pode ter. Continua a olhar, para cima, para alguém que já não está cá. Cabelos encaracolados, negros. Bem negros. Talvez tenha catorze anos. Pode até ter dezasseis. Vinte. Aquele olhar tem cinco, quatro, três. É um olhar de criança perdida, de saudade dos tempos de infância. De quem procura desesperadamente conforto. Algum mimo.

Sim, é Natal. Mas não tem a ver com isso. A perda é recente. E deve doer. Dói. Porque agora deixa que as lágrimas escorram pela face, encosta a cabeça a um ombro amigo. Não seria aquele que procurava. Nem se quer era o ombro que queria.

Gostava de ter tido coragem para lhe dar um abraço. Para lhe dar força. Para que o conforto que ela procura pudesse ser minimizado. Mas limitei-me a olhar. E a chorar também. Arrependi-me de não lhe ter dado um pouco do que tenho. Mas aquele olhar, perdido. Aquele olhar, de criança. Está cravado em mim. Um nó. Bem forte.

Desculpa.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Linhas

Eu até gosto de te ver pela janela. De te sorrir enquanto me esperas. Dizer adeus em tom de provocação porque sei que não vais estar no "até já". Todos queremos o impossível. Mas às vezes, estamos tão perto, tão perto. Que irrita não poder chegar lá.

Mesmo quando temos aqueles momentos. Que sim, que são do outro mundo.
É quase impossível. E, por isso, às vezes amarga.

terça-feira, novembro 17, 2009

Pela janela

Passa os dias à janela. Gosta de observar os detalhes, os pequenos pormenores. Desculpa, os pormenores. Repara no relógio falso da senhora rica que passa sem lhe dizer bom dia. E vê-a todos os dias. Sorri-lhe todos os dias. Mas não recebe um olhar de volta. A senhora rica do relógio falso. É assim que ela a cataloga. O relógio imita a luz do ouro. Falso.

São nove da manhã. Os óculos grossos obrigam-na a franzir as sobrancelhas. Há algum tempo que não tem dinheiro para comprar lentes novas. Já para não falar da armação antiga, acastanhada, fora de moda. Uma armação que a distingue. Mas ela não se importa. Ali, perdida numa pequena rua lisboeta, sim, à janela, percorre olhares e gestos. Gritos e lágrimas. E vê as luzes.

A vida fê-la toda ali. E quem ali mora gosta de lhe sorrir. É como um polícia que lhes dá segurança.Observa. Não deixa escapar nada. Mas não, não partilha as histórias. Fica com elas. Guarda-as. No bairro, diz-se que escreve um livro onde deixa palavras a pintar as folhas de papel. Sabe que o homem trai a mulher. Sabe que a mulher não sabe de nada. Mas que faz o mesmo. E não conta. Sabe que o filho salta pela janela, que fuma, que tem amigos impróprios. Sabe que os pais não sabem. Sabe que o presidente da junta aceita uns trocos para fazer favores. Mas não diz. Sabe que um dos funcionários é informador da polícia. Mas não conta. Sabe que o polícia que investiga o presidente da junta até gosta de ir dar uma voltas aos bares das meninas. Sabe que tudo. Observa. Descobre em si os pormenores da intriga. Faz a história. Mas não conta. Podia ser uma estátua. Mas os olhos, meigos, escondidos atrás dos óculos antiquados, não deixam que assim seja.

Tem as pernas presas. Um acidente de automóvel. Para a vida. Por isso não percebe a senhora rica do relógio falso. Por isso continua a sorrir-lhe à espera que um dia compreenda através dos óculos escuros o que lhe vai na alma. Esta senhora, que ela não conhece, mas que acha ser falsa, é a única que não lhe sorri. Não sabe nada dela. Ela sabe tudo de toda a gente. E queria saber a história desta senhora. Da senhora que passa todos os dias, há dias, há meses, há anos, há duas décadas. Que passa sempre de óculos escuros e cabeça baixa. E tem um relógio falso. Ninguém pergunta. Ela também não. Todos os pormenores menos este.

Quer acabar o livro. Dizem no bairro. Um dia estendo-lhe a mão, pensa. Ela não sabe nada da senhora rica. O relógio falso é a pista que lhe alimenta a descoberta. Ela não vai sair dali. Um dia abro-lhe a porta. E alimenta a descoberta. Um dia, abrigo-a em mim. E descansamos.

domingo, novembro 01, 2009

Recados

Tenho de te escrever, essa é a verdade. Mas não o fiz durante algum tempo, não te quis deixar recados, dar-te um pouco de mim. Não o fiz porque achei que não merecias. Foi isto que aconteceu, já to disse, sem reservas, portanto se o ouvires novamente não será uma surpresa.

E, apesar de ter vontade, apesar de já estar a deixar aqui um pouco de mim, continuo à espera. Porque tu estás em dívida. Sabes disso. E eu não me quero voltar a contentar com os espaços. Ou melhor, estou a escrever porque preciso das tuas palavras. Mas não estou a pedir. Porque fizémos esse acordo. E eu detesto pedir. Detesto pedir o que é suposto ter sem ter de relembrar.

No essencial, este é o problema. Ter de agir de forma oposta àquilo que sempre defendi.
Porque o facto de te amar, de te odiar, ou de te esquecer, não justifica nada disso.

Porque tu me habituaste assim.
Porque nós somos isso. Sem isso.
Desaparecemos.

terça-feira, outubro 06, 2009

Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas coisas do mar. Contar-te o amor ardente e as ilhas que só há no verbo amar. Contar-te longamente longamente.  Amor ardente. Amor ardente. E mar. Contar-te longamente as misteriosas maravilhas do verbo navegar. E mar. Amar: as coisas perigosas.  Contar-te longamente que já foi num tempo doce coisa amar. E mar. Contar-te longamente como doi  desembarcar nas ilhas misteriosas. Contar-te o mar ardente e o verbo amar. E longamente as coisas perigosas.                           Manuel Alegre
P.S. Contar-te, mais longamente. O sabor do verbo amar.

sexta-feira, setembro 25, 2009

"O que há em mim é sobretudo cansaço"

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

(Obrigada.)

quinta-feira, setembro 24, 2009

Sabes uma coisa?

Hoje não me chega.
Não me chega.
E bastava um simples gesto.


terça-feira, setembro 15, 2009

Enquanto

Quando me disseste "um dia", fiquei à espera, abraçada a um conforto que não conhecia, que queria conhecer, mas sim, sabendo, tendo consciência, a saber, que nada pode deixar de ser enquanto é. Agarrei-me a esses pedaços de pequenas coisas que poderiam vir a ser mundo, que ela gostava que fossem, mesmo sem ter a certeza, a saber, nada pode deixar de ser enquanto é. E não foi mais do que isso, que quis ser entre precalços, pedaços, fantasias, as palpitações constantes que acalmas com suavidade, pode deixar de ser enquanto o é. Por isso, o querer, perto bem perto, ser conquistada, acho que sim, que já tinha falado nisso, ela tinha até insistido, com medo, deixar de ser enquanto o é. "Um dia" podem ser instantes, achou ela que seria isso que ele queria dizer, por entre palavras de conforto, suavidade sentida, de ser enquanto o é. Ela dormia entre aspas, sim entre aspas, o resto pairava, suavemente, com delicadeza, ser enquanto o é. Ele fica à espera da definição, do momento em que ela se decida, espera, era ele. As palavras sairam trocadas, enquanto o é. Hoje, ela, ele os dois, ficam a pairar. É. E ponto.

terça-feira, setembro 08, 2009

Querer

Há muita coisa que não controlamos. É normal que assim seja, às vezes até agradecemos que se passe assim. Depois, há os dias em que gostávamos de poder gritar, responder, bater mesmo, porque não? Sim, é verdade. Gritamos, pelo menos cá dentro. Sente-se o amargo de boca. Acho mesmo que percebo a ideia de sofrer com as injustiças. Estranho, não é? Irónico, diria antes.

Mas é melhor que fiquemos por aqui. Não onde ele quer que estejamos. Mas onde ele pensa que nós estamos. Mandar à merda. É isso. Chamar filho da puta. Mas não. Porque há os merdas. E esta vontade imensa de deitar cá para fora. De sentir. É isso, sentir. É bom. Faz-me querer. E isso, poucos se podem dar ao luxo. É engraçado como nunca deixei de querer. É bom sinal, não é? Mandar à merda. E sorrir. Deixar para trás. Um passo atrás. Dois em frente. Porque se ganha assim.

Porque sabe melhor assim. Chamar filho da puta. E no final, depois da confusão. Depois das palavras. Depois das lágrimas. Chamar filho da puta. E sorrir. E pode parecer agressivo. Pode. Mas não é. É facilidade de expressão. Prefiro chamar-lhe isso.

Felizmente, aquele não é o mundo real. Aquele não é o Mundo. Chamar filho da puta. E pensar no sorriso. Ultrapassar-me. Prefiro chamar-lhe crescimento. Mas é como o amor, é fodido.

E é bom.